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28 janeiro 2014

Entrevista ao capitão de equipa João Vilão

Vilao entrevista

O FC Serpa tem condições para evoluir

e eu quero acompanhar essa evolução”

João Vilão é o capitão da equipa de seniores. A caminho dos 29 anos, que completará em abril, é, provavelmente, o jogador que conhece melhor o grupo, para o qual entrou há uma década.

Deu os primeiros pontapés com as cores do clube aos oito anos e só as trocou, pelas do Desportivo de Beja, entre os 13 e os 18. Filho de outro natural da terra que deixou história no FC Serpa — José Vilão, que foi jogador e presidente do clube.

— João viveu os dois momentos mais altos da história recente do FC Serpa: o título da I Divisão da AF Beja, em 2005/2006 e a conquista da Taça do Distrito, em 2010/2011.

Na conversa que deu origem a esta entrevista, o "capitão" fala dos últimos dez anos do clube, das tristezas e alegrias de uma equipa que, em várias dimensões, acaba por se confundir com a sua história pessoal.

Tal como no campo, onde a sua apurada visão de jogo e técnica refinada o distinguem, também as suas palavras não são vulgares e traduzem ideias bem claras e refletidas.

João Vilão gosta do clube e, por isso, fala dele com paixão e coragem, não se furtando aos assuntos delicados.

Ouvi-lo ajuda a compreender o que vai na cabeça deste grupo de jogadores que, domingo a domingo, continua a levar ao campo Manuel Baião centenas de adeptos e a marcar as preocupações e conversas dos serpenses.

 
— Na sua perspetiva, como foi a última década do FC Serpa?
— Bem, tenho de pensar um pouco… mas acho que, apesar dos altos e baixos, de anos melhores e piores, o clube está no mesmo patamar. As condições são melhores, claro, pois jogava-se num campo pelado e hoje há o sintético e o relvado natural, o que é muito bom a nível distrital; no aspeto organizacional, as coisas estão razoavelmente boas. Mas, repito, o clube é globalmente o mesmo.
 
— E do ponto de vista, pessoal?
— Um das épocas que mais gostei foi, obviamente a do título distrital, em 2005/2006, só que nessa altura eu era novo e não constituía solução permanente. Mas um título é sempre um título e isso marcou-me.
 
— Quando passou a ser titular regularmente?
— Fiz uma primeira época de sénior excelente, em 2004/2005. Estava no Desportivo de Beja e tinha tido poucas oportunidades para jogar. A equipa disputava a III Divisão nacional, possuía um plantel forte e muito competitivo. O Fernando da Mina, que era o treinador do FC Serpa nessa altura, e já me conhecia das camadas jovens e do futsal, quis que eu viesse para cá.
 
— E veio…
— Bem, jogar nos seniores do Desportivo era a minha ambição inicial mas, dadas as circunstâncias que referi e o facto do FC Serpa ser o clube da minha terra, vim com agrado. Pois bem, nessa altura estávamos em último lugar na I Divisão distrital, comecei a jogar e obtivemos uma série de bons resultados, tendo o FC Serpa sido a equipa que mais pontuou na segunda volta. Acabámos por ficar no 5.º ou 6.º lugares, foi um salto grande!
 
— Uma boa entrada.
— Pois, e até fui prestar provas no Benfica B! Fiz lá uns testes mas, como muitos outros, regressei ao clube de origem.
 
— E depois?
— Depois, na época seguinte, o FC Serpa reforçou-se para ser campeão— e foi-o — e joguei menos vezes.
 
— Veio a III Divisão. Como foi?
— Para mim, foi semelhante à época anterior, com participações irregulares. Jogo a médio-centro, médio-ofensivo, posições importantes numa equipa que dificultam a afirmações de jogadores mais jovens.
 
— Para além disso, o plantel reforçou-se, como é habitual nestas situações.
— Pois, só que, na minha perspetiva, perdeu alguma qualidade. Dispensaram-se jogadores da terra, vieram alguns de fora… enfim, o habitual quando se sobe de divisão e se considera que a equipa que jogou o Distrital não tem qualidade para o Nacional.
 
— Não concorda…
— Acho que é um erro pensar-se assim.
 
— No ano seguinte o FC Serpa voltou ao Distrital…
— Lesionei-me nesse ano. Foi uma lesão grave que ocorreu em meados de dezembro. Tive de ser operado ao menisco e fui obrigado a parar durante um ano e meio. Para os meus 23 ou 24 anos foi péssimo, pois procurava firmar-me na equipa.
 
— Mas voltou em força, ou não?
— Na verdade, a longa paragem fez-me perder aquela vontade de jogar que tinha anteriormente. Porém, o Ivo Garcias e o João Cofones, dirigentes da altura, convenceram-me a regressar.
 
— Mas o futebol deve estar-lhe na massa do sangue, até por transmissão familiar, uma vez que o seu pai foi um jogador bem conhecido e até presidente do FC Serpa.
— É verdade, embora ele tenha sido um jogador muito diferente de mim. O facto é que voltei, já com o treinador Hugo Rolim. As ambições da equipa não eram muitas, pois o clube ainda se estava a recompor da passagem pela III Divisão nacional, que deixara problemas financeiros. Voltou-se, claro, a apostar mais em jogadores da terra.
 
— É verdade que o público vai mais ao futebol quando os jogadores são da casa?
— É verdade, embora haja outros fatores que determinam a afluência dos adeptos. Refiro-me, obviamente, aos resultados pois, mesmo que os jogadores sejam todos da terra, se a equipa estiver sempre a perder, o público desliga-se. O ideal é que ambas as situações coincidam.
 
— Bem, o regresso trouxe-lhe a afirmação definitiva na equipa?
— Não, pois estava mal fisicamente, tinha peso a mais, falta de ritmo, falta de toque de bola, falta de tudo… No entanto fiz alguns jogos e acabei a época num patamar aceitável. Na época seguinte continuei a jogar muito pouco e foi assim até à saída do treinador e à vinda do Balico.
 
— As coisas mudaram?
— Sim, o Balico apostou em mim, comecei a jogar mais vezes e a partir dessa altura fui sempre melhorando.
 
— E ganhou a braçadeira de capitão.
— Isso ocorreu só na época seguinte, em 2011/2012, já com o treinador Hugo Felício.
 
— Foi ele que o escolheu para capitão?
— Sim, com a direção.
 
— Os jogadores não se pronunciaram?
— Nessa altura, não.
 
— O treinador e a direção chegaram um dia ao pé de si e disseram, aqui está a braçadeira. Foi assim?
— Mais ou menos. Quer dizer, explicaram, a mim, aos outros capitães e a todos os jogadores os motivos da escolha e ninguém se opôs.
 
— Recebeu a nomeação com agrado ou as pernas tremeram-lhe por causa da responsabilidade?
— Fiquei contente. E as pernas não me tremeram.
 
— Com o Hugo Felício veio a conquista da Taça do Distrito, em 2010/2011, que causou grande entusiasmo.
— Pois foi, mas a época até começou de forma irregular, pois alguns jogadores de fora deixaram a equipa por não haver condições para se manter o que havia sido combinado com eles. Enfim, nem tudo correu bem, embora o final tenha sido feliz com a vitória na Taça.
 
— Para se ganhar a Taça, para além da qualidade, é preciso alguma sorte, ou não?
— Eu diria muita sorte, sobretudo no sorteio.
 
— Coisa que nesta temporada o FC Serpa não teve?
— Pois não, fomos jogar a Castro Verde, a casa de um adversário forte, logo na primeira eliminatória. Mas podíamos ter ganho porque o resultado foi injusto.
 
— A época passada, com o segundo lugar no campeonato, foi uma das melhores dos anos mais recentes?
— Foi muito boa. Consolidámos o que vínhamos fazendo na época anterior e atingimos um patamar superior. Podíamos ter sido campeões, embora o Almodôvar tenha feito um campeonato muito bom — só teve duas derrotas, como nós, mas empatou menos duas vezes e ficou quatro pontos à nossa frente. Foi um excelente campeão, sem dúvida, mas nós também fizemos uma época muito boa.
 
— Isso terá feito com que as expectativas dos adeptos para esta temporada fossem altas, talvez demasiado altas tendo em conta que se previa que o campeonato fosse muito mais difícil por causa das equipas que desceram…
— … E que estão num patamar bem superior…
 
— Pois é e, sabendo os jogadores disto, como é que a equipa perspetivou o campeonato?
— Bem, em primeiro lugar e mesmo antes das questões desportivas, assistimos com alguma surpresa à mudança de grande parte dos elementos da direção. As ideias talvez fossem as mesmas, mas as pessoas eram diferentes.
 
— Esse facto teve influência na equipa?
— Estes factos têm sempre. Às vezes para melhor, outras para pior, só o tempo o pode dizer. Estou a referir-me ao geral e não a esta mudança em particular.
 
— Voltando às expectativas dos atletas…
— Eram igualmente elevadas, pois tínhamos a noção da nossa boa qualidade. Bons jogadores da terra, aos quais se juntaram outros de fora com créditos firmados no distrito.
 
— O objetivo era o título?
— Não, isso não, até porque o nosso orçamento não permitia lutar de igual para igual com Aljustrelense, Castrense e companhia.
 
— Bem, as expectativas eram altas, porém…
— … Porém o campeonato não nos começou bem e acho que isso afetou um pouco a nossa confiança, pois desacreditámos nas nossas próprias capacidades. Ou então baixámos à Terra, não sei bem, o facto é que não conseguimos manter os resultados que vínhamos fazendo nas épocas anteriores.
 
— Entretanto, e por causa disso, a direção decidiu trocar o treinador. Inicialmente os jogadores não concordaram, pois não?
— De facto, a maior parte do plantel, num primeiro momento, não gostou lá muito.
 
— Porquê?
— Porque considerava que o problema não estaria no treinador, mas nos próprios jogadores, que não conseguiam, dentro do campo, fazer o que ele queria, que era ganhar.
 
— Sentiram-se os responsáveis pela saída do treinador?
— De certa forma, sim.
 
— Essa confissão por parte dos jogadores não é muito comum.
— Isso não sei, mas foi assim. No entanto, convém deixar claro que também compreendemos a posição da direção, pois estas situações fazem parte do futebol. Estão sempre a acontecer e ainda não se descobriu uma fórmula mágica para as resolver.
 
— Entretanto chegou Paulo paixão, o novo treinador…
— Atenção, as nossas ideias sobre a manutenção do treinador anterior ocorreram antes de sabermos quem seria o substituto, pois, a partir do momento em que ele foi anunciado, a questão ficou, para nós, completamente arrumada. Aliás, refira-se que o processo foi transparente, isto é, houve uma reunião entre todos os jogadores e a direção na qual todos tiveram oportunidade de expor os seus pontos de vista. Não foi um confronto entre jogadores e direção, foi uma salutar troca de opiniões.
 
— Isso ficou claro. Como receberam Paulo Paixão?
— Sem qualquer problema. Aliás, julgo que estas situações são sempre mais difíceis para os treinadores do que para os jogadores. Nós já cá estamos, conhecemos os cantos à casa, o treinador é que se confronta com uma realidade nova, ainda por cima meio delicada. Para nós é deixar para trás o que está feito, e que não podemos mudar, e andar para a frente, ajudando o treinador o melhor que sabemos.
 
— O capitão assume maior importância em momentos destes, em que há problemas?
— Sim, e neste caso concreto senti que tinha de ser, essencialmente, moderador, o que é um papel de responsabilidade.
 
— E no dia-a-dia, quando as coisas correm normalmente, o capitão do FC Serpa é aquele jogador que vai junto do árbitro, antes dos jogos, para o ritual da moeda ao ar, ou é algo mais?
— Bem, para além de escolher “campo ou a bola”, tenho a missão de procurar manter o equilíbrio da equipa, não a deixar descontrolar-se nos momentos difíceis.
 
— Voltemos aos objetivos do coletivo. São os mesmos do início ou alteraram-se?
— Adaptaram-se, tendo em conta o lugar que ocupamos na classificação. Temos de ser realistas e perceber que estamos já distantes dos primeiros lugares. Talvez seja possível chegarmos aos 4.º ou 5.º lugares. Normalmente o FC Serpa faz boas primeiras voltas e quebra nas segundas. Vamos ver se este ano invertemos essa tendência
 
— Qual é a vossa perceção em relação aos adeptos? Sentem-nos menos entusiasmados?
— Sim, sentimos isso, pois estamos atentos aos adeptos, que são muito importantes para nós.
 
— O treinador Paulo Paixão trouxe novidades?
— Não há dois treinadores iguais. Entre Hugo Felício e Paulo Paixão há logo uma questão de experiência: enquanto o primeiro já anda nisto há alguns anos, Paulo Paixão está, esta temporada, a ter a primeira experiência com equipas seniores.
 
— Isso é bom ou mau?
— Há vantagens e desvantagens, como em tudo.
 
— Por exemplo:
— Por exemplo, a forma de lidar com os futebolistas dos escalões de formação é diferente da forma de lidar com adultos. Mas muitos passam por isso e todos se adaptam.
 
— E na forma de jogar? Há uma ideia feita que diz que os treinadores “tarimbados” tendem a adaptar os seus princípios à realidade dos campeonatos em que estão a competir, adotando uma atitude pragmática; já os menos experientes mantem-se fieis às ideias académicas. Estes serão inovadores enquanto os primeiros serão conservadores. É assim?
— Acho que essa questão se aplicava mais à diferença entre os treinadores com e sem formação académica, mas hoje, mesmo nas divisões distritais, a preparação dos treinadores é elevada e, portanto, as diferenças a esse nível notam-se cada vez menos.
 
— Quer dizer que, regra geral, os treinadores do futebol distrital estão mais bem preparados hoje do que há uma década?
— Julgo que sim, embora eu tenha tido excelentes treinadores quando jogava nas camadas jovens do Desportivo. Refiro-me, por exemplo, a Arlindo Morais e Pedro Caixinha e até a António Rolim que, em comparação com os outros, estavam avançados para a época.
 
— A qualidade do futebol distrital também mudou nestes anos?
— Ah, aí sim! É muito diferente. Antes havia mais o tal futebol pragmático de que falávamos há pouco. Tinha de se chegar com a bola à baliza a todo o custo e isso queria, em muitos casos, dizer que se adotava o estilo “pontapé para a frente”. Hoje os processos são mais elaborados, há mais qualidade. As condições dos campos também mudaram muito e quase já não há pelados.
 
— Muitas equipas jogam em relvados e, entretanto, surgiram os tapetes sintéticos. Há muitas diferenças entre estes pisos?
— Sim, os relvados “pesam” mais nas pernas, são mais exigentes fisicamente do que os sintéticos. O toque na bola também é diferente.
 
— Quais prefere?
— Os relvados naturais. Mas a grande diferença é, sem dúvida, entre os relvados — naturais ou sintéticos — e os pelados. Aqui, sim, há uma enorme diferença que tem reflexos na qualidade do futebol.
 
— Temos estado a falar do passado e do presente do capitão e da equipa FC Serpa. Falta o futuro. Que planos tem?
— À beira dos 29 anos, sou realista e não tenho planos por aí além. O que mais gostava era que o FC Serpa evoluísse e eu acompanhasse essa evolução. Acho que o FC Serpa tem condições para ascender a outro patamar e estabilizar-se e eu posso acompanhar o clube.
 
— Será fácil haver essa evolução?
— Fácil, não, mas é possível. Não será fácil porque, ao contrário de outros tempos, quanto muitos jovens faziam a sua vida em Serpa, hoje a maior parte tem de sair. Havia aqui trabalho e o nível de escolaridade satisfazia as necessidades. Juntava-se, facilmente, um grupo de jogadores de qualidade razoável para se fazer uma boa temporada. Hoje, uns vão trabalhar para um lado, outros vão estudar para outro e isso condiciona bastante a formação da equipa, que todos os anos fica dependente destas contingências.
 
— As ajudas aos jogadores também mudaram?
— Hoje paga-se menos, muito menos, e a tendência é ir acabando com o pouco que ainda se recebe. Há não muito tempo havia quem conseguisse viver só do futebol, mesmo no distrital. Hoje é impossível.
 
— Essa realidade explica, por exemplo, a diferença entre equipas de topo, como o Aljustrelense, e as outras?
— Claramente, pois essas equipas têm recursos para atrair bons jogadores de fora.
 
— As alterações recentes no quadro das competições — refiro-me ao fim da III Divisão — foram boas ou más para o Distrital de Beja?
— A meu ver esta mudança foi benéfica em vários aspetos. Em primeiro lugar, o campeonato ficou mais forte e isso faz com que os jogadores evoluam. Em segundo, aproxima as divisões distritais das profissionais, pois no Campeonato Nacional de Seniores tudo é já semiprofissional. Um clube que venha do Distrital e vá competir nesta divisão adquire uma experiência extraordinária, evoluiu muito e isso pode ser proveitoso futuramente.

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Centro Óptico de Serpa

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